Fui pra casa e quando cheguei à soleira da minha porta, me vi retratado ali: entre cervejas espalhadas pela sala, dois caras estatelados no sofá esperando alguma coisa, livros e papeis , também, jogados por todos os lados. Na cozinha, duas amigas fazendo hora: esperando que o Caio, um dos caras, se levantasse e fizesse suas pequenas tatuagens. Dois quadros inacabados e um filhote de vira-lata. Por esse dias estavamos comendo o pão que diabo amassou quando o dinheiro da cerveja já era minguado e passávamos a destilados quase todos dias, ah! e o aluguel também atrasara e começaram as discussões e conversas com o locatário, o curso de pintura foi pras cucuias. Voltar a trabalhar carregando caminhões pra sobreviver se tornava necessário. ou serviços iguais, serviços de animais enjaulados. A poupança acabara, o sonho persistia bravamente. e a vontade de respirar tornou-se crime de vadiagem e inadimplência. Nem o Caio conseguia mais manter o ritmo de duas ou três tatuagens por semana. O Luís, o outro cara, ironicamente, era o único que tinha carteira assinada, só que gastava muito dinheiro na zona perto de casa... as meninas agradeciam.
quarta-feira, 3 de julho de 2024
O VINHO TRANSBORDOU DO COPO (2º PARTE)
Mas no outro dia tudo deu errado. Quando eu acordei, Pan já estava fazendo papinha para Camila, no resto da manhã eu e Felipe ficamos assistindo a formula 1 enquanto ela e Cláudia lavavam a louça e preparavam o almoço. Uma garrafa de cerveja sobrou da noite anterior. conversávamos, apesar da ressaca coletiva, apenas as crianças estavam salvas. Pan dormira muito pouco, mas não bebera muito naquele casamento. E foi durante um bate papo massante entre pessoas que acordaram sob o efeito do álcool, que as coisas começaram a desmoronar. ela começou a questionar-me sobre minha vida, ela queria saber quando eu iria arranjar um emprego, por que larguei duas faculdades e por que eu bebia tanto. Três respostas hesitantes foram o suficiente para ruim a paixão. JESUS CRISTO! IMAGINE-ME CASADO COM ELA! SERIA UMA BRIGA DAS BOAS! E o pior é que ela devia ter alguma razão... ela ficou xoxa, é verdade. me aproximei dela depois do almoço e percebi que apenas o tesão por sexo ficara sob sua pele. Os dias que se passaram provaram que nem isto resistiu. Semanas depois nos encontramos, cada qual com sua nova companhia, entre dentes amarelos, nos cumprimentamos.
que eu posso dizer: eu prefiro ser assim. prefiro, do que triturado passivamente por um subemprego, do que ser humilhado cotidianamente por uma relação desgastada. Que mais eu posso dizer sobre tudo isso: eu poderia ter amado aquela pequena, mais eu, ainda, me amo muito mais. Por isso, peguei minha cerveja na geladeira, cumprimentei as meninas e fui pro sofá. passava um bom jogo de futebol. depois, elas começaram a tomar batida de côco, a "Baianinha", pra criar coragem pra receber as agulhadas do Caio, fazer suas tatuagenzinhas. enquanto ele furava uma (tatuava, não vão pensar besteira!), eu xavequei a outra. ela tinha 1,80m, 10 a mais que eu. e fui pro banheiro com ela, dei uns amassos e fizemos sexo de pé ali mesmo. um sexo antianatômico, mas foi bom. muito bom.
TRÊS DROGADOS (2º PARTE)
...e eu mesmo quase morri uma par de vezes, ou talvez eu tenha morrido mesmo... por causa de uma vida imatura à procura das drogas. mas voltando a esta história, eu me despedi daqueles canalhas e continuei naquela esquina, quase quatro da manhã, voltei para o beco e prossegui. entrei depois de duas quadras mais à frente, ruas que eu andava de dia rumo ao trabalho, virei e prossegui mais duas. estas ruas eu não ousaria andar a qualquer hora, do dia ou da noite, se não fosse A DROGA DAQUELA DOSE A MAIS, QUE CONSUMIA MINHA IMAGINAÇÃO PARA LÁ DE ALTERADA. Por pouco não consumiria minha vida também, não sei... Cambaleie pela rua, não sei dizer por quanto tempo até que vi um pia de bicicleta vir em minha direção - me dei conta de onde veio, e do perigo que eu estava passando ali parado, ao longe três caras se encostavam na casinha da invasão, cheirando cola.
_ eaí, véio. quê oque?
_ quatro pedras
_ dá o dinheiro aí que eu busco
uma péssima idéia passou pela minha cabeça, então...
_ vamô fazê assim,... vamô junto, lá pega!?
_ você quê í lá? não sei, plaboi, naum dá
_ Tá, vou embora. Então
dez segundos depois...
_ Peraí,... vamô lá
o cara saiu da bicicleta e caminhou junto comigo pela rua até a entrada do carreiro, contrariado. ele parou e continuou a conversa que estava tendo os caras quando me viu, conversavam como se eu não estivesse ali, ou melhor conversavam para eu ouvir mesmo, eram conversas sobre discussões que acabavam brigas e retaliações por parte de um deles que acabou com alguém inconsciente na sargeta. "A violência é tão fascinante/E nossas vidas são tão normais/E você passa de noite e sempre vê/..." procurei não olhar diretamente para eles, pois já sei como é que é, mas também procurei não ficar olhando para o chão ou para o horizonte como um bobo perdido. eu podia tá bêbado, chapado, mas não estava louco de deixar me levarem assim tão fácil. Mesmo de relance, dava pra ver que aqueles caras eram feios, mal encarados e não me deixaram andar com eles por compaixão ou empatia. era por causa do meu dinheiro e aí de mim se não lucrassem com minha investida na boca de fumo.
Um lado do carreiro dava pra um rio que fedia a merda, um lugar horrível para ser jogado depois de apanhar, juro que pensei nisso e muito mais... do outro, barracos no escuro, um facho de luz aqui ou ali, 50 ou 60 metros assim. escuridão. ao lado de uma valeta que dava pro rio, barro, muito barro no chão, galhos e pedaços de madeira, também. e quatro ou cinco sujeitos que fediam igualmente mal. Chegamos a beirada do rio e encontrei um bom espaço aberto coberto de grana e barro molhado e mais sujeitos. ARMAS, FUMAÇA DE CRACK, GRUPINHO EM TORNO DE UM SOFAZINHO VELHO, UM AR DE DESCONFIANÇA, OLHARES SORATEIROS SOBRE MIM E AQUELE CHEIRO DE MERDA DO RIO. Um cara chegou perto e foi que comecei a ouvir ameaças para nunca mais voltar lá, para agradecer a Deus por não levar um tiro (eu mesmo, na hora, ficaria sóbrio com tudo aquilo se não tivesse tão chapado). No final das contas: eu estava vivo. É, EU TAVA VIVO E PEGUEI AS QUATRO PEDRAS! Uma caiu no chão, na hora que ele me entregou (claro, que eu não fui procurar, eu só queria sair dali), outra dei para aqueles que me levaram até lá. fiquei com duas, abri a primeira e estava vazia, só tinha papel alumínio lá e o cheiro forte da droga. A outra fumei para realizar a fantasia de que eu estaria plenamente satisfeito fumando a última dose da madrugada... mas não estava.
REMÉDIO
REMÉDIO TIRA O MEU TÉDIO
REMÉDIO TIRA O MEU TÉDIO
ANALGÉSICO PARA O CÉREBRO
ANALGÉSICO PARA O CÉREBRO
SE APERTA CHAMO O MÉDICO
SE APERTA CHAMO O MÉDICO
AMANÇA A MINHA RAIVA
AMANÇA A MINHA RAIVA
AGUARDO ATÉ QUE EU SAIA
AGUARDO ATÉ QUE EU SAIA
ESPERO QUE EU NÃO CAIA
ESPERO QUE EU NÃO CAIA
LIMPO DAQUI PRA FRENTE
LIMPO DAQUI PRA FRENTE
E ASSIM EU SIGO CRENTE
E ASSIM EU SIGO CRENTE
TOCA BOLA PARA FRENTE
BOLA PARA FRENTE
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