ERA o primeiro dia do ano. e minha cabeça explodia, e ainda eram nove horas da manhã. E eu já estava de pé. Aquele quarto onde eu estava parecia um cárcere. Dois triliches feitos de madeira (deve ter sido o dono da pensão quem fez com as próprias mãos), em um metro e meio por cinco. Sem janelas, só uma porta. fui para o bar, ao lado da pensão, e peguei uma lata de cerveja. Quando voltei estavam todos acordados. Vitor, Camila, Jaque., (nos perdemos, de madrugada, pelas ruas de Guaratuba. e ficamos zanzando por umas 2 horas até acharmos a casa) mais um casal e outro cara (uns chatos) levantaram. Tateei até a mesa que ficava no quintal – lembrei da cadeira que levei embora da beira da praia (droga, quê que eu fiz?) – e logo chegou minha namorada (?). me olhando com desprezo, ironia e um pouco de compaixão, talvez. foi ai que entendi que terminamos...
Ela me recriminou pelas baixarias da noite anterior. Ela me olhava como um amigo olha para outro que está no fundo do poço. E tudo o que fiz foi por amar ela e por ciúmes, insegurança, fraqueza. Merda. Eu já não podia mais viver com aquilo, sou um solitário por natureza. não dei para ela nem um tchau e sai pra comprar outra cerveja. Não dava mais prar ficar lá, ao lado dela. me olhando assim, daquele jeito. Eu precisava de ar e de cigarros. Não vendiam cigarros no bar! Andei sem direção vendo as mulheres, outra pensão (pra ficar), o mar, outros bares para beber. Caminhei, assim, sem pressa e sem porquê até chegar à rodoviária. Tomei outra cerveja e comprei minha carteira de Marlboro. Já passava do meio-dia. Eu pensei que ela poderia precisar de passagem, por isso tentei ligar pro seu celular. Tocou, tocou e ninguém atendeu. Pra mim esse foi um sinal.
Tomei outra. Liguei de novo. Nada. Fiquei num bar muquifa até não me reconhecer mais. Tomei outra e fui sentar no banco do ponto de ônibus. Um casal de velhinhos, com uns setentas anos, no mínimo, começaram a falar comigo. Eram muito gentis – não tive como ficar me remoendo com meus desgostos e não ser pelo menos gentil também. – Falamos sobre suas netas, sobre Guaratuba e Sta. Catarina, faculdades, festas de fim de ano. Depois eu peguei o meu ônibus e fui-me embora.
Ao chegar na pensão, depois de descer no ponto errado e caminhar um monte pedido, de novo, não encontrei ninguém. Lembrei-me daquela garrafa de rum guardada na minha mochila. um pouco de Fanta laranja e ficou ótimo, tudo dentro de um copão, enorme, feito de meia garrafa de refrigerante descartável. Fui tomando até que acabou, preparei outra, voltei para a frente da pensão. A rua era horrível, de areia, esburacada, sem viva alma (e era ano novo!). até que chegou o meu amigo Vitor, o motivo dos meus piores ciúmes. Fiz ele beber comigo. Ele falou que estavam me procurando. Que passaram a tarde toda no El Rancho, à beira mar. Eu não queria saber de ninguém. Só de beber, beber, ..., morrer. Eu a amava e vivíamos em conflito. Eu não mudava, ela não mudava. O amor enfraquecia depois de anos. Estávamos bebendo quando a Jaque. chegou, ela era bem doidinha e ficava sempre sorrindo da minha cara de bêbado.
eu podia esquecer de tudo durante uns dias na cama com ela. mas isso não aconteceu. Por que eu não quis, eu sei: eu sou um idiota. Eles foram chegando, aos poucos, e me viam bêbado, de novo, na frente da casa. Eu estava cagando para eles... depois de anos de uma relação tumultuada – com indas e vindas, e olha que tivemos momentos ótimos – ela entrou, na casa, sem tomar consciência da minha existência ali. Ficou um minuto ou dois lá dentro e saiu como um furacão. Furiosa. Corri atrás dela e comecei a falar. Ela não me deu atenção. Aí eu percebi que tudo que estava falando para ela não era o que eu queria “realmente” falar, eu nao conseguia “rasgar” o peito e falar tudo estava guardado. Nada de sincero saía. – não era pra ser... – Então entrei e xinguei ela, até cansar a boca, para todos ouvirem, na espera de que quem gostasse dela me partisse a cara. Uns riam da cena, outros me evitavam. Aí, arrumei a minha mochila e voltei para a rodoviária, troquei minha passagem para aquela noite. Às nove entrei no ônibus, o céu estava todo negro com a Lua cheia. Dormi então a viagem inteira e quando cheguei a Curitiba, aquela cidade já me parecia muito diferente.
CWB
Jun/2007
As bebedeiras do velho Buck com sotaque paranaense. Não me soa tão autentico, mas ainda assim tem algo daquela beleza etilica que ressende do semblante dos vagabundos e andarilhos que estão cagando para nós.
ResponderExcluirrssificado.