quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

TRÊS DROGADOS

NÃO quero saber das suas pirações. somos todos muito iguais. iguais demais até. cada um contando sua vida louca como se fosse uma história épica. E não é assim, nós, apenas, somos escravos dessas nossas fraquezas. Eu pensava isso enquanto Bob (acho que não era esse o nome dele, não lembro e nem me importo), mas ele tinha cara de Bob, contava sua viagem no LSD.
_Foi incrível, cara. É.. É Paulo o seu nome, né? – fiz um movimento com a cabeça – Eu sentia o som da música entrando em meus ossos. E... – E ele continuou a falar, (ele era uma matraca histérica) eu me desliguei daquele papo todo e dei uma olhada em volta de onde estávamos. O céu fechado da madrugada, 3 e quinze, de um inverno fudido. Estávamos em três num carreiro de uma favela qualquer, era um corredor escuro que dava caminho de uma rua sem saída para outra que levava a uma área residencial de melhor qualidade.
_Ei. Preciso de um minuto para me situar...
_Todos nós precisamos, cara.
_estou me sentindo como naquele dia que tomei LSD...
Finalmente, Bob parou de falar e o meu amigo Fred teve seu minuto. Mas, aí, ele começou a caminhar no carreiro, indo e voltando. O barulho dos seus passos iam longe e começaram a me irritar, aquilo poderia chamar a atenção de algum morador que poderia ligar pra polícia e aí adeus noite de sono. Já aturrei muita gente chata só pelo barato de me drogar, Bob era o chato de pior tipo para ter ao lado quando se quer curtir essa porra. Disse estar mal para chegar em casa, podia encontrar alguém, lá, se levantando aquela hora. Sem mais nem menos ele foi e voltou, de novo, e se despediu. nós 2 despedimo-nos dele. Fred estava o tempo todo encostado na parede e agachado, tentando se sentir melhor. Saiu de sua boca um fino lampejo de voz, Bob escutou e voltou curioso.
_Você ainda tem aí, não tem?
_nao. Eu só tinha aquelas duas. Mas, se vocês quiserem, vou lá buscar mais. Olhei para Fred, esperando que ele tivesse algum dinheiro para mais uma correria.
_Putz! Eu tô com uns problemas em casa e...
_É, Fred. Não esquenta, chega de correria por hoje.
_É, você tem razão. Paulo.
Um longo e pesado silêncio. E depois o Fred perguntou se alguém queria ir embora. Foi minha deixa para me despedir deles, daquela loucura toda e ir para minha casa. Ele pegou sua bicicleta e o Bob falou que iria até a esquina com a gente e depois voltava, com medo de passarmos a perna nele e fazermos a correria sozinhos. Bob então falou que foi ao show do Raul e do Marcelo Nova, que jogou um baseadão no palco e que o Marcelo chutou longe. Três dias depois, o Raul morreu...


*


...e eu mesmo quase morri uma par de vezes por causa de uma longa vida à procura de drogas. e eu me despedi daqueles canalhas e continuei naquela esquina, quase 4 da manhã, voltei para o beco e prossegui. entrei depois de duas quadras mais à frente, virei a esquerda, prossegui mais duas quadras. estas ruas eu não gostava de andar, mas se não fosse A DROGA DAQUELA DOSE A MAIS, QUE CONSUMIA O MEU JUÍZO E MEU RESPEITO PRÓPRIO, eu teria ido dormir, como deveria ter feito. Cambaleie pela rua, não sei dizer por quanto tempo cansado, bêbado e drogado até que vi um pia de bicicleta vir em minha direção - me dei conta de onde veio, e do perigo que eu estava passando ali, ao longe três caras se encostavam na casinha da invasão, cheirando cola e me observando.
_ eaí, véio. quê o que aqui?
_ quatro pedras.
_ dá o dinheiro aí que eu busco pro'cê.
uma péssima idéia passou pela minha cabeça quando disse aquilo, então falei...
_ vamô fazê assim,... vamô junto, lá pega essa pedra!?
_ você quê í lá? não sei, plaboi, naum dá.
_ Tá, vou embora.
fui me virando, quando então...
_ Peraí,... vamô lá...
o cara saiu da bicicleta e caminhou junto comigo pela rua até a entrada do carreiro, contrariado. ele parou e continuou a conversa que estava tendo os caras quando me viu, conversavam como se eu não estivesse ali, ou melhor conversavam para eu ouvir mesmo, eram conversas sobre discussões que acabavam brigas e uma retaliação por parte de um deles que acabou com alguém inconsciente na sargeta. Já dizia o poeta "A violência é tão fascinante/E nossas vidas são tão normais/E você passa de noite e sempre vê/..." Procurei não olhar diretamente para eles, pois já sei como é que é, mas também procurei não ficar olhando para o chão ou para o horizonte como um bobo perdido. eu podia tá bêbado, chapado, mas não estava louco de deixar me levarem assim tão fácil, mesmo já sabendo que eu não teria chance alguma. De relance, dava pra ver que aqueles caras eram feios, mal encarados e que não me deixaram andar com eles por compaixão ou empatia. era só por causa do dinheiro e ai de mim se não lucrassem com minha investida na boca de fumo.
Um lado do carreiro dava pra uma valeta que fedia a merda, um lugar horrível para ser jogado depois de apanhar, do outro barracos no escuro, pequenos fachos de luz aqui ou ali, 50 ou 60 metros assim na escuridão. o carreiro e a valeta davam pro rio Belém. Barro, muito barro no chão, galhos e pedaços de madeira também. e quatro ou cinco sujeitos que fediam igualmente mal. Andamos quinze metros indo à beirada do rio e encontrei um bom espaço aberto, coberto o chão de grana e barro molhado e mais sujeitos de péssima reputação. ARMAS, FUMAÇA DE CRACK, GRUPINHO EM TORNO DE UM SOFAZINHO VELHO, UM AR DE DESCONFIANÇA, OLHARES SORATEIROS SOBRE MIM E AQUELE CHEIRO DE MERDA DO RIO. Um cara chegou perto e foi que comecei a ouvir ameaças para nunca mais voltar lá, para agradecer a Deus por não levar um tiro (eu mesmo, na hora, ficaria sóbrio com tudo aquilo se não tivesse tão chapado). No final das contas: eu estava vivo. É, EU SAI DE LÁ VIVO E PEGUEI AS QUATRO PEDRAS! Pro meu azar uma caiu no chão na hora que ele me entregou (claro, que eu não fui procurar, eu só queria sair dali), outra dei para aqueles que me levaram até lá. fiquei com duas, abri a primeira e estava vazia, só tinha papel alumínio lá e o cheiro forte da droga. A outra fumei para realizar a fantasia de que eu estaria plenamente satisfeito fumando a última dose da madrugada... mas não estava.

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