Clara estava na entrada da casa, próxima do portão, terminava seu cigarrinho quando veio me cumprimentar com aquele seu abraço sincero que só ela tinha, me perguntou o que eu estava fazendo – o de sempre. Trabalhando com meus textos, com meus quadros. Dormindo e bebendo muito – Lá pelas tantas, todos mais alcoolizados, felizes, sinceros, eu soube que estavam fazendo uma aposta absurda, queriam ver quem cairia de bêbado primeiro. Na última festa eu dormi sentado na cadeira, quando me acordaram, eu tentei me levantar e cai de testa no chão. Não quis me levantar mais e fiquei lá. Como uma criança dormindo no berço. Tive um rasgo horrível na testa que eu tapei com o boné durante uma semana.
Pan estava lá com a família (pai, mãe, irmã, avô, avó). Era uma verdadeira dama rodeada de mulheres e crianças. Estavam ao redor da pista de dança. Ouvimos de tudo: Creedence, Natirus, Chitãozinho & Chororó, enfim. Até funk teve. Foi quando ela se levantou e foi dançar. Pensei: cara, olha como ela dança. – Eu não aprendi a dançar, estava ocupado com coisas maiores. como disse Bukowski – mas era lindo vê-la. Pensei: ela dança como eu escrevo. Eu já a conhecia, tínhamos conversado e rido juntos. Eu adorei as coxas dela, os olhos bem azuis e os cabelos negros. Fui um voyeur vendo-a dançar à vontade. Seu olhar, logo, se encontrou com o meu e percebi que ela sorria para mim.
No fim da festa fomos tomar a saideira, uns chamavam-na de caideira, na casa do Felipe e da Cláudia. Felipe apostou em mim, 50 reais. E perdeu porque eu não caí. Ela foi no carro deles com as crianças e eu fui noutro. Felipe é um cara difícil de você não gostar. Ele me deu uma carona e ficamos conversando sobre o lendário bagulho da lata, até a hora que a sua mulher quis ir embora dormir. Esse bagulho tinha história, era uma maconha e diziam ter sido jogada no rio afim de dispensar o flagrante por um navio holandês, o que era verdade ou mentira era difícil saber, uns diziam ter fumando tabletes dessa maconha, outros que fumou apenas uma raspa dela mas que foi uma experiência incrível, de horas de pura alucinação. Quando vi isso já eram umas quatro da madrugada. No fim ficou para beber a última cerveja eu, Felipe e a Pan. Dois cariocas, parentes, e foi sobre música que conversamos. Samba. Quando ele foi dormir, nossos olhos se colaram. Daquele jeito. O meu e o da Pan. O escritor, aqui, teve pouco para falar naquela hora e ela parecia sem ação. Sabíamos o que ia acontecer, falei para ela sobre paixão e ela se rendeu. Nos beijamos e tudo fez sentido, naquela noite.
*
Mas no outro dia tudo deu errado. Quando eu acordei, Pan já estava fazendo papinha para Camila, no resto da manhã eu e Felipe ficamos assistindo a formula 1 enquanto ela e Cláudia lavavam a louça e preparavam o almoço. Uma garrafa de cerveja sobrou da noite anterior. conversávamos, apesar da ressaca coletiva, apenas as crianças estavam salvas. Pan dormira muito pouco, mas não bebera muito naquele casamento. E foi durante um bate papo massante entre pessoas que acordaram sob o efeito do álcool, que as coisas começaram a desmoronar. ela começou a questionar-me sobre minha vida, ela queria saber quando eu iria arranjar um emprego, por que larguei duas faculdades e por que eu bebia tanto. Três respostas hesitantes foram o suficiente para ruim a paixão. JESUS CRISTO! IMAGINE-ME CASADO COM ELA! SERIA UMA BRIGA DAS BOAS! E o pior é que ela devia ter alguma razão... ela ficou xoxa, é verdade. me aproximei dela depois do almoço e percebi que apenas o tesão por sexo ficara sob sua pele. Os dias que se passaram provaram que nem isto resistiu. Semanas depois nos encontramos, cada qual com sua nova companhia, entre dentes amarelos, nos cumprimentamos.
Fui pra casa e quando cheguei à soleira da minha porta, me vi retratado ali: entre cervejas espalhadas pela sala, dois caras estatelados no sofá esperando alguma coisa, livros e papeis , também, jogados por todos os lados. Na cozinha, duas amigas fazendo hora: esperando que o Caio, um dos caras, se levantasse e fizesse suas pequenas tatuagens. Dois quadros inacabados e um filhote de vira-lata. Por esse dias estavamos comendo o pão que diabo amassou quando o dinheiro da cerveja já era minguado e passávamos a destilados quase todos dias, ah! e o aluguel também atrasara e começaram as discussões e conversas com o locatário, o curso de pintura foi pras cucuias. Voltar a trabalhar carregando caminhões pra sobreviver se tornava necessário. ou serviços iguais, serviços de animais enjaulados. A poupança acabara, o sonho persistia bravamente. e a vontade de respirar tornou-se crime de vadiagem e inadimplência. Nem o Caio conseguia mais manter o ritmo de duas ou três tatuagens por semana. O Luís, o outro cara, ironicamente, era o único que tinha carteira assinada, só que gastava muito dinheiro na zona perto de casa... as meninas agradeciam.
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